quarta-feira, 18 de abril de 2018

Liberdade - Fernando Pessoa

Referi o poema Liberdade, de Fernando Pessoa, a propósito do poema homónimo de Armindo Rodrigues. Apesar do de Pessoa ser bastante conhecido e fácil de encontrar, acho que merece ser incluído no meu conjunto de poemas.

Liberdade – Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor de tudo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Como disse, não me parece que faça algum sentido comparar este poema com o de Armindo Rodrigues. As liberdades a que se referem são muito diferentes: Armindo Rodrigues refere-se à liberdade frente à opressão.Tem uma carga ideológica marcada e um estilo e um ritmo condicentes; por outro lado, Fernando Pessoa refere-se à liberdade em relação às convenções, como se diria agora contra o politicamente correcto. É mais um comentário jocoso, talvez nem sequer muito sincero (Fernando Pessoa certamente tinha biblioteca e apreciava livros, apesar de os apelidar de "papéis pintados com tinta". Nada a ver, portanto, com o grito de liberdade de Armindo Rodrigues.

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