sábado, 14 de abril de 2018

Mote e glosas tradicionais e humorísticos

Ouvi, há muitos anos, o meu avô recitar uma poesia cheia de humor pelas contradições de situações cómicas. Tratava-se de uma poesia tradicional sob a forma de mote e glosas. Fixei o poema de cor, mas com o tempo acabei esquecendo a glosa final. Não consegui nem encontrar qualquer referência que me ajudasse nem reconstituir de memória o que falta. Mesmo assim, pela sua graça, acho útil incluir nesta série de poesias. Ei-la:

Nas trevas dum claro dia
(mote e glosas)

Mote:
Por uma ladeira abaixo
Fui trepando devagar,
Caí por terra suspenso,
Sendo enterrado no ar.


Glosas:
1)
Nas trevas dum claro dia
Eu, parado, caminhava
E calado discursava
Sobre o que um mudo dizia.

Ao frio do Sol eu tremia
E buscando o ardor dum riacho
Entre os gelos me encaixo
P’ra buscar um suadouro
E subi, qual um besoiro,
Por uma ladeira abaixo.

2)
Nisto descubro encoberta
A mais hedionda beleza,
Opulenta de pobreza
E a panhonha mais esperta.

Lutando em dúvida certa
Entrei p’la terra a voar
E de pé me fui prostrar
Ante essa harpia divina
E do monte pr’á campina
Fui trepando devagar.
3)
Eu de sede tinha um rio
A crescer fora da boca
E de cheia senti oca
A cabeça a arder em frio

Duma ovelha ouvi o pio
E o balar dum pisco imenso
E onde o claro era mais denso
Fechando os olhos, vi tudo,
E ao ver a Páscoa no Entrudo
Caí por terra suspenso.

4)


Sendo enterrado no ar.

Que poderá causar um enterro no ar? Fica o mistério. Se algum dos meus numerosos (!) leitores tiver alguma pista, agradeço comunicação.

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