terça-feira, 10 de abril de 2018

O Corvo - mais traduções

Pensando que haveria, decerto, outros tradutores do poema de Poe, fiz o que eu julgava ser uma breve busca. Fiquei espantado ao achar 51 traduções (http://www.elsonfroes.com.br/mpoe.htm), algumas em prosa, muitas em verso. Este sítio cita ainda duas traduções para francês, ambas em prosa. Apesar de os autores serem poetas de renome (Baudelaire e Mallarmé), nenhuma me pareceu ter grande qualidade. Das traduções para português, nem consegui ler mais do que um pequeno número e, devo dizê-lo, a maioria não me agradou. No entanto há duas que me perece terem a qualidade mínima para merecerem figurar nesta resenha. São ambas de brasileiros. Apresento-as de seguida, sem comentários.

O Corvo - tradução de Milton Amado

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém,  fiquei a murmurar, que bate à porta, devagar;
Sim, é só isso e nada mais.”

Ah! claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
E o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
E nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
Arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
E a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.”

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
Mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
Que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
Assim de leve, em hora morta.” Escancarei então a porta:
Escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranquila, olhei-a a fundo, a perquiri-la,
Sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negror imoto e quedo,
Só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
Mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É na janela”, penso então. “Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
O vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.”

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto e, sem notar sequer meu susto,
Adeja e pousa sobre o busto, uma escultura de Minerva,
Bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
Empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
Desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular”, então lhe digo
“Não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo!”
Qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
Misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
Que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua porta,
Uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
E que se chame “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
Com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
Enquanto a mágoa me envenena: “Amigos? sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ele também há de ir-se embora.”
E disse o Corvo: “Nunca mais.”

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
Julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
E a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
De seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: o ritornelo
De “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
Girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
E, mergulhado no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
Visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
Com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso e antigo Corvo
Grasnava sempre: “Nunca mais.”

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
Eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
Dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
Dessa poltrona em que ela, ausente, à luz cai suavemente,
Já não repousa, ah! Nunca mais?

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
Ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
Esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora,
Sorve-o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta!? brado? Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
Que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
De algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
Mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
Existe um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”

“Profeta!” exclamo. “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,
Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida! Ergo-me e grito, alma incendida.
Volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu voo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
Sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
E a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
Não há de erguer-se, ai! nunca mais!

O autor do blog de onde retirei esta versão compara-a com as de Fernando Pessoa e Machado de Assis e considera a tradução de Milton Amado (1913-1974) "a mais bela das traduções para o português." e que "conseguiu o feito de transportar esta energia singular desse poema para a língua portuguesa." Milton Amado foi um jornalista brasileiro que ficou conhecido principalmente pelas suas traduções, nomeadamente a de Don Quixote de la Mancha.

A outra tradução que me parece merecer transcrição é a de João Köpke (1852-1926, escritor e tradutor brasileiro.

 O Corvo – tradução de João Köpke

Meia noite seria, hora triste! alquebrado
E de tédio vencido, uma vez, debruçado
Sobre tomo e mais tomo, em que antigos autores
Expuseram saber, que bem raros leitores
Têm hoje, eu meditava, o lido ponderando,
Que em tais livros de antanho andara consultando,
E já, do cochilar, meio ao sono passava,
Quando ouvi de repente um bater, que soava
À porta de meu quarto, ali à mão, baixinho
Como o bater de quem batesse de mansinho,
Batesse de mansinho à porta de meu quarto.
Dentro de mim, mal o ouvi, disse eu: “A horas tais,
Quem pode vir bater à porta do meu quarto?
Alguém que me procura. Há de ser. Nada mais”.


Era então – claramente ainda hoje o relembro!
Bem entrado era então o inclemente Dezembro;
E seu espectro, no chão, cada brasa deixava,
Que, aos poucos, a morrer, no lar agonizava.
Aflito estava eu já por que nascesse o dia;
E, em vão, dessa leitura, ao meu sofrer, queria
Tirar alívio – alívio à crua e dura mágoa;
Alívio, que abrandasse a enorme, funda mágoa
De haver perdido, haver perdido, ó sim, Lenora,
A virgem radiante, a quem saudade chora!
A virgem peregrina, a quem os anjos chamam
Lenora – Aquela a quem, nos coros triunfais,
Lenora, lá no céu, os anjos ora chamam
E nome não terá na terra nunca mais!


E o frouxo farfalhar, que vinha das cortinas
De seda roxa, incerto e mesto, nas retinas
me punha visões tais, e, na alma, tais terrores
Que iguais nunca eu sentira; e em tão cruéis tremores
Me entrava a sacudir que, por conter os saltos
Ao coração – por ver quedar os sobressaltos
Em que dúbio tremia, entrei a repetir,
A repetir sem conta, alheio a repetir:
“Está alguém a bater à porta do meu quarto;
Bate alguém, certamente, à porta do meu quarto;
Alguém que me procura e quer falar. Decerto,
Alguém, que, sem querer, se atrasou. Pois que mais
Pode ser?... É alguém. Há de ser. É, decerto.
É, decerto, isto mesmo. Há de ser. Nada mais”.


A alma se me aquietou assim; e, então, perdendo,
Perdendo a hesitação, afoito fui dizendo:
“Quem quer que vós sejais, ou senhor, ou senhora,
Vosso perdão aqui sinceramente implora
Quem, quase a cochilar, confessa, e tão de manso
Batendo vós à porta, à porta tão de manso
Batendo, tão de manso, à porta do seu quarto,
Mal pôde perceber que à porta do seu quarto
Batíeis”. Neste ponto, à porta dirigindo
Os passos, neste ponto, agora, eu, acudindo
À porta, ao enfrentá-la, abri-a pronto busco;
E, de braço estendido, ao tocar-lhe os umbrais,
Escancaro-a de vez num movimento brusco:
Lá fora, a escuridão. E só. E nada mais.


E, dessa escuridão, cravando o olhar no fundo,
A revolvê-la estive, a revolver-lhe o fundo,
Surpreso, apavorado, hesitante, a sonhar
Sonhos, que não ousou ninguém jamais sonhar.
Mas, o silêncio, mudo: o mesmo sempre. E, a treva,
Calada em frente a mim, nenhum indício a treva
Me dava. Dela só, somente me chegava,
Me chegava ao ouvido em voz, que o murmurava,
Um nome, e em murmúrio, um nome só, Lenora!
Era eu que o murmurava; era eu, e já Lenora
Eis o eco a responder, Lenora repetindo;
Palavra, que só eu, na treva, entre as letais
Angústias da incerteza, em sonhos me afundindo,
Ficara a repetir. Só isso. E nada mais.


Voltando ao quarto, então, com a alma em fogo a arder,
Com pouco ouvi de novo, ouvi baixo bater,
Bem de leve outra vez, mas mais alto um pouquinho,
Mais alto desta vez, mais alto um bocadinho.
“É, com certeza”, eu disse, “é com certeza, agora,
Uma coisa qualquer que bate lá de fora
Nas gelosias. É. Mas será?... Quem o sabe?...
Quem sabe que mistério há nisto? Quem o sabe?...
Sossega, coração! e deixa-me que o veja;
Que, por meus olhos, sonde o que for que ali esteja;
Que sonde o que isto for; que o sonde por meus olhos;
Que o mostre ao meu pavor, e, em linhas naturais,
O fato ponha à luz, mostrando-o claro aos olhos.
É, com certeza, o vento. O vento e nada mais.”


Para a janela, pois, crescendo, eu a escancaro;
E, mal o olhar firmei, logo o vulto deparo
De um corvo senhoril dos bons tempos de outrora,
Que, da lufada em pós, entrando lá de fora,
E circungira e paira e se vai, por fim, pôr,
Sem saudar, nem deter-se ou pousar, se vai pôr,
Com ares de fidalgo ou fidalga, assentado
Bem por cima da porta, ao alto empoleirado
Da porta do meu quarto, em um busto de Palas;
Alcandorado ali sobre o busto de Palas;
Alcandorado ali, do branco busto em cima;
Do branco busto sobre as formas divinais.
Nesse busto pousou, que a minha porta encima.
Pousou; deixou-se estar. Só isso, e nada mais.


Ao ver dessa ave negra o modo assim severo,
Ao ver com que decoro e com que porte austero,
Ali, defronte a mim, tão grave procedia,
Desfez-se num momento aquela fantasia,
Que a mente me assaltara, e transmudou-se em riso.
“Embora”, disse eu, pois, dando expansão ao riso,
“Tosado, embora, cerce o teu penacho veja,
Não quero crer que tal a covardia seja
Tachada punição. Não és um velho corvo,
Repelente e fatal, que foges ao céu torvo.
Certo, um título tens e foros de grandeza;
Tens estirpe e brasões nos reinos avernais.
Dize, pois, qual teu nome entre a ilustre nobreza
De Plutão?” E tornou-me o corvo: “Nunca mais”.


De pasmo me tomei ao ver com tal clareza
Falar essa ave horrenda, embora, com certeza,
Sentido não tivesse, ou pouco ou nulo alcance,
A resposta, que deu assim tão de relance.
De pasmo me tomei, porquanto ninguém pode
Fugir a concordar, ninguém, na vida, pode
Dizer que outro mortal já tivesse a ventura
De ver pousar uma ave, ou outra criatura
Ao alto, sobre a porta, a porta do seu quarto;
Sobre o busto, que encime a porta do seu quarto;
Pousar, deixar-se estar e nada mais; uma ave
Horrenda, que viesse, afrontando hibernais
Rigores de procela, à noite, austera e grave,
Dizer-lhe que no inferno a chamam Nunca mais.


Assustou-me a resposta assim tão bem cabida,
Que rompeu a mudez até aí mantida.
Assustou-me a resposta; e, então, para explicá-la,
Eu me pus a dizer qual quem a medo fala:
“Nestas palavras só consiste certamente
O seu vocabulário; e, nelas, inconsciente,
Reproduz o que ouviu. Com certeza, a algum dono
Infeliz pertenceu. Pode ser que a algum dono
Tivesse pertencido, a quem com teimosia
Perseguisse a desgraça, e, na monotonia
Desse estribilho só, distração procurasse
As dores, que gemia – as dores sem iguais
Do seu sofrer, e a mágoa aos lábios lhe levasse,
Por desabafo e alento, o grito: “Nunca mais!”.


No entanto, o corvo, só, pousado sobre o busto
Quedo, pousado e só, dali de sobre o busto,
Não me deu mais que tal resposta, em que pusera
Talvez toda a sua alma. E nem ao que dissera
Mais nada acrescentou. Nem uma só das penas
Moveu. Não mais moveu de leve uma das penas
Que fosse, a não ser quando eu, mal e mal, baixinho,
E murmuro, falei, mas baixo, bem baixinho:
“Em antes dele já perdi muitos amigos:
Perdido tenho, sim, por vária vez, amigos,
Que foram sem retorno. Irá ele também
Sem retorno, assim como aos caros ideais
A esperança se foi, e, com o dia que vem,
Este irá. Grasna o corvo apenas: “Nunca mais”.


Porém, mais uma vez, essa ave transformando
A tristeza à minha alma em riso a transmudando,
Fiz rodar um assento e dela o pus em frente,
E do busto e da porta em face justamente.
Bem defronte lho pus; e o corpo, no veludo,
Todo o peso largando, afundei; e já tudo
Que estivera a pensar – idéia ou fantasia,
Comecei a prender como elos, que queria
Jungidos, para ver que sentido quisera
Aquela ave ominosa à resposta, que dera,
Inculcar; para ver se encontrava o sentido
Que essa ave de feições e gestos espectrais
Na resposta pusera; – achar com que sentido
No crocitar dizia apenas: “Nunca mais”.


Para tal, eu, sentado, a rever, mas comigo,
O que vira, fiquei, mas a sós, só comigo,
Sem palavra sequer dirigir à agoureira
Ave, que, com o olhar, qual rúbida fogueira,
O âmago ao coração me estava requeimando.
No coxim de veludo a cabeça pousando,
No coxim, que o clarão da luz como um olhar
De cupidez voraz descia a iluminar,
Eu, a gosto, escrutava o que quisera o corvo
Dizer no seu falar, que tinha em tanto estorvo
A fácil compreensão. Nesse coxim, agora,
A fronte eu descansava, em que d’Ela jamais
A fronte pousará qual se pousava outrora.
Não mais se pousará, oh, nunca, nunca mais!


Como que o ar então me pareceu mais denso;
A modo que um perfume ali pairou de incenso,
Que, em turicremo vaso, ao ar silente alcançassem
Serafins, cujos pés em cadência roçassem
A alcatifa, que o chão de meu quarto alfaiava.
E, pois, à inspiração, que, sobre mim baixava,
Cedendo, a me exprobar do pavor, que sentia,
Contra mim revoltado, em voz alta dizia:
“Desgraçado! Teu Deus, teu Deus, por estes anjos,
Teu Deus trégua te dá; teu Deus por estes anjos,
Remédio à dor te manda. Esquece de Lenora
A perda, e empina a taça, em que as dores mortais
Tu podes afogar. Risca dessa Lenora
Na mente o nome”. E grasna o corvo: “Nunca mais”.


“Profeta”, eu disse então, “ave ou demônio sejas,
Profeta mesmo assim! Quer vindo aqui tu sejas
Atentar-me, ou lançado o sopro das borrascas
Te houvesse a esta plaga – aflito, mas das vascas
Do desespero livre; – ao ermo desta plaga,
Que um poder infernal no seu eflúvio alaga;
Ao sei deste lar, onde o terror domina –
Se tem a dor, que assim saudade me propina,
Lenitivo, que a acalme, oh, di-lo, que to imploro!
Oh, dize-me se tem este luto, em que choro,
Trégua, que ao meu sofrer as torturas abrande;
Lenitivo, que à dor embote os seus punhais
E, à saudade, que peno, o esquecimento mande.
Oh, di-lo, corvo, di-lo!” E o corvo: “Nunca mais”.


“Profeta”, eu disse então, “ave ou demônio sejas,
Profeta mesmo assim e como quer que o sejas!
Pelo Céu, que nos cobre, e o Deus, que veneramos,
Por tudo quanto os dois por mais caro prezamos,
Dize, dize à minha alma, a que a dor tanto preme,
À alma, que esta saudade infinda e crua geme,
Dize por compaixão se, no Éden distante,
Em seus braços verá a Virgem fulgurante;
Aquela Virgem santa, a que, no céu, Lenora
Chamam, e que ninguém na terra chama agora;
A Virgem, por quem peno – a Virgem, que a saudade,
Me traz sempre na mente em sonhos perenais!
Oh, dize se algum dia abraçá-la, em verdade,
Lá no céu, poderá!” E o corvo: “Nunca mais”.


“Que seja essa resposta a nossa despedida,
Ou ave ou tentador!” bradei com a voz erguida,
Num salto em pé me pondo. “Oh, volta à tempestade!
Volta à noite do inferno! Em minha soledade
Que eu fique sempre só! Não deixes uma pena,
Nem uma pena só, nem uma negra pena
Das tuas, em penhor desta mentira atroz,
Que acabas de afirmar com refalsada voz!
De sobre o busto sai! O vulto, eia, retira
De sobre a minha porta! O adunco bico tira
Daqui do coração, onde o cravaste! Oh, vai-te
Embora e deixa em paz meus tristes penetrais!
Ou ave ou tentador, deixa-me em paz! Oh, vai-te!”
E, imóvel, diz o corvo apenas: “Nunca mais!”.


E, sem mais se mover, ali se tem pousado,
Imóvel sempre, o corvo; ali, alcandorado
De Palas sobre o busto – erguido ao alto – acima
Da porta do meu quarto – e mudo e quedo a encima!
E os olhos seus são como os olhos de um demônio
Absorto a maquinar – são olhos de um demônio!
E, da lâmpada a luz, sobre ele em cheio desce
O clarão com fulgor, que vivo resplandece,
E lhe estampa no chão a dura e negra sombra!
E minha alma, oh, horror! da treva dessa sombra,
Que flutua no chão pairando eternamente,
Minha alma do negror, que os giros infernais
Adensam no voar, que paira eternamente,
Nunca mais se há de erguer! Ai, nunca! Nunca mais!

Sem comentários:

Enviar um comentário