sábado, 7 de abril de 2018

O Corvo

Outra poesia que se conta entre as minhas preferidas e da qual me lembro de tentar decorar já há mais de 60 anos, andava eu nos primeiros anos do Liceu. Acabei por a saber de cor completa, mas nos últimos anos por vezes tenho de recorrer ao texto como se fosse uma cábula por me faltarem alguns trechos. Esta poesia é O Corvo, de Allan Poe, na tradução de Fernando Pessoa. Transcrevo de imediato o poema integralmente, deixando a história da minha relação com ele e outras considerações para depois.

O Corvo

Edgar Allan Poe
tradução de Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia lento e triste
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente em meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
    É só isso, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
    Mas sem nome aqui jamais!

Como a tremer, frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
    É só isso, e nada mais.”

E, mais forte num instante, já não tardo ou hesitante,
“Senhor – eu disse, – “ou senhora, decerto me desculpais,
Mas eu ia adormecendo quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
    Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido, receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais –
Eu o disse: o nome d’ela, e o eco disse os meus ais
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
    É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
    Foi, pousou e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus gestos rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.
    Disse o corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais,
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais
    Com o nome “Nunca mais” .

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que esta frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido murmurei lento, “Amigos, sonhos  - mortais
Todos, todos já se foram, amanhã também te vais.”
    Disse o corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais.
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
    Era este “Nunca mais”.

Mas fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais
    Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais.

Fez-se então o ar mais denso, como cheio de um [dum] incenso
Que anjos dessem, cujos passos soam musicais.
“Maldito!” a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais.
    Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demónio ou ave preta – !
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
    Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demónio ou ave preta – !
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
    Disse o corvo: Nunca mais!

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!” eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais.
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais,
Tira o vulto de meu peito e a sombra dos meus umbrais.
    Disse o corvo, “Nunca mais”.

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh’alma, dessa sombra, que no chão há mais e mais,
    Libertar-se-á… nunca mais!

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