Nessa minha primeira viagem ao estrangeiro, o modo de viajar era muito diferente do que se usa hoje em dia. Claro que já havia, desde há muito, voos directos Lisboa-Paris, mas destinavam-se apenas a uma classe privilegiada que podia pagar os custos elevados que eram praticados. Para membros da pequena burguesia, como nós, havia o Sud-Express, que demorava 2 dias a chegar a Paris, implicava mudança de comboio em Irun por causa da divergência das bitolas, que para mim inexplicavelmente, ainda perdura. Quem podia pagar as chamadas couchetes ainda podia passar a noite deitado, mas a maioria dos viajantes dormiam sentados no seu lugar. Mas, para os jovens como nós, havia ainda uma solução mais económica: viajar à boleia. Foi o que a minha irmã e eu escolhemos, mas por precaução só a partir de Madrid. O pouco dinheiro que tínhamos ganho a dar explicações a alunos de liceu dificilmente dava para mais. Assim, em Madrid pusemo-nos à estrada na esperança de que alguém nos levasse em direcção à fronteira francesa. Após umas horas de tentativas, tivemos de desistir e voltámos ao comboio. Mas a partir de Bayonne as coisas correram melhor e o resto da viagem foi feita com base no chamado auto-stop e pernoitando em albergues da juventude, para o que nos tínhamos munido do respectivo cartão de membro.
A estadia em França, após uns dias, poucos, de turismo em Paris, começou com trabalho comunitário num campo da organização Jeunesse et Reconstruction, ligada à obra do Abbé Pierre. Depois rumámos aos Alpes, onde plantei milhares de pinheiros como protecção contra as avalanches. Por fim fomos fazer vindimas perto de Bordéus. Em todas estas actividades tínhamos direito a alojamento, a refeições e a um pequeno argent de poche. Foi no último campo de vindimas, num grupo internacional de jovens, que participámos em noites de convívio que me deixaram belas recordações. E foi aí que, numa dessas noites, ouvi dois membros do nosso grupo cantar uma canção que nunca mais me esqueceu. Só muito recentemente, graças à internet, pude identificar a canção como sendo do reportório de Charles Trenet e pude recuperar a letra integral:
MES JEUNES ANNÉES - Charles Trenet
Mes jeunes années
Courent dans la montagne,
Courent dans les sentiers
Pleins d'oiseaux et de fleurs
Et les Pyrénées
Chantent au vent d'Espagne,
Chantent la mélodie
Qui berça mon coeur,
Chantent les souvenirs,
Chantent ma tendre enfance,
Chantent tous les beaux jours
A jamais finis
Et, comme les bergers
Des montagnes de France,
Chantent le ciel léger
De mon beau pays
Parfois, loin des ruisseaux,
Loin des sources vagabondes,
Loin des fraîches chansons d'eau,
Loin des cascades qui grondent,
Je songe, et c'est là ma chanson,
Au temps béni des premières saisons
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