domingo, 15 de abril de 2018

Pastelaria de Mário Cesariny

São muitas as poesias de Mário Cesariny que gostaria de incluir nesta série. Algumas sei-as de cor. Muitas são minhas conhecidas há muitos anos. Cesariny é um dos poetas portugueses meus preferidos. Começo pela Pastelaria, um dos seus poemas mais conhecidos e um dos que possuem, para mim, especial significado, que é afinal o que importa:

PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
 nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
— ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o, que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito, alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

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